chupeta nossa de cada dia

8 outubro, 2010

acendeu um cigarro depois que esporrou na cara da putinha da 13 de maio.
deu a segunda tragada e olhou pra baixo, viu a moça sentada no meio fio.
– me dá um trago?
ela fumava, ele ajeitava as calças.
– faz tempo que não te vejo por aqui, o que aconteceu?
– nada, só não estava com vontade.
– tá bom, conta outra Lu.
– eu não gosto que você me chame assim. não é porque a gente se conhece que eu te dou intimidade.
(silêncio)
a putinha deu um trago e devolveu o cigarro, levantou e se despediu.
– bom, acho que encerramos por hoje, certo?
– se eu te pagar, você passa a noite comigo? só quero que você durma ao meu lado.
– isso é bem coisa de viado enh, Lourenço.
– aposto que quando eu como tua buceta com força você não acha isso.
– por você eu até faço isso, mas a grana tem que ser boa.
ele mostra as várias notas de 50 e a putinha abre um sorriso.
– assim a vida fica fácil!

carta de Cibele

13 setembro, 2010

a lembrança do fracasso é uma arma poderosa, querido. sei exatamente qual foi nossa última briga. cada lágrima minha por uma palavra sua. nossa insistência em manter essa relação é só mais um costume. eu espero que você mude, sabendo que isso não vai acontecer. você espera que eu mude, só aguardando a cena repetida para que seu velho discurso seja dito. nenhuma mudança, por maior que seja, será suficiente. se ao menos a rua e o bar fizessem alguma diferença, mas nada disso causa o efeito anestésico de antes. a lembrança do fracasso é a justificativa que precisamos para continuar sendo o que somos, um casal à deriva. nenhum dos dois foi surpreendido. pelo menos por enquanto.

carta de Cibele

3 setembro, 2010

ontem encontrei meu sorriso no susto, em uma brincadeira de criança praticada por adultos. eu tinha que manter o equilíbrio mudando a posição dos pés e das mãos em diferentes círculos coloridos. o curioso é que a risada acontecia exatamente quando eu caia, quando já não aguentava permanecer do jeito que eu precisava estar. talvez você ache isso uma grande besteira, mas aquela felicidade foi real, ainda que efêmera. não quero te passar lição nenhuma com isso, não combina comigo. só que ontem foi essa queda que me trouxe liberdade. uma queda livre de qualquer intenção sistemática e racional. eu tenho saudades dos nossos encontros, meu querido. de preparar sua dose, acender seu cigarro no meu, andar nua pela casa enquanto você me desenha, de ouvir suas histórias, até mesmo aquelas que você vive com a Lu e com seu filho. mas minha vida anda acontecendo sem que eu esteja presente nela e eu preciso voltar. você sabe que somos dois perdidos. o que você não sabe é que eu não tenho um caminho. nem de ida, tão pouco de volta.

carta de Lourenço

1 setembro, 2010

você sabe como às vezes a palavra me falta. o que talvez você não saiba é que esse vazio forçado me sufoca, porque tudo que eu não digo se perde dentro de mim. e quando a palavra se perde dentro de mim, eu me perco também. você sabe que de tempo em tempo estou perdido. você tenta me mostrar o caminho de volta olhando pra frente, mas sabe da minha teimosia e insistência em olhar pra trás. tudo que poderia estar acontecendo agora, nesse instante, já se perdeu. o que talvez você não saiba é que com o passar dos anos o abismo foi ficando cada vez mais fundo e escuro. e se antes o teu sorriso formava um par de asas e me tirava daqui, hoje meu par de óculos ficou fraco e já não me deixa enxergar nada. agora você sabe que esse vazio forçado me sufoca, arranca de mim o que talvez seja a única coisa que me salve: a palavra. e nem eu e nem você sabemos o que está por vir. mas isso é um alívio, pois ninguém sabe.

nevermore

15 junho, 2010

acabou.
talvez o luto tenha chegado ao fim.
o último estágio é a aceitação?
eu aceito,
eu aceito que acabou.

se antes você ocupava coração e futuro,
hoje só sobraram fotos e palavras vazias.

tenho a vaga lembrança daquele tempo,
mas hoje não sinto nada.

nem dor,
nem ódio,
nada.

é o vazio,
tão mais próximo da indiferença.

eu gostaria de chorar ao falar sobre tudo isso,
mas esse dia chegou: o dia da despedida silenciosa.

talvez tenha sido bom e bonito quando tudo aconteceu,
mas hoje não guardo mais essa lembrança.

acabou.
nevermore.
não preciso que Freud explique.
eu sei, agora eu sei.

acabou.

(…)

Lourenço arrisca poesia.
existe um amor maior do aquele que se divide na cama,
porque é aquele amor que não se divide.
e se existisse esse amor, não acabava.

“- E o que eu faço com esse saber, Ci? Mais um vazio que não tem cura, porque ex-amigo não existe.”

crawl on me*

21 maio, 2010

Mário, 11h09, Aeroporto, Ponte Área SP/RJ.

curioso o modo como você pensa e age quando está comigo. digo isso porque desconfio que exista uma outra versão que desconheço. enquanto você tomava banho, eu via a cidade ali embaixo. suja, cinza. você diz que aqui é o seu lugar e eu te digo que você só fala isso porque não conhece metade do mundo.

“- Quem disse que eu preciso conhecer o mundo inteiro pra ter certeza que SP é o meu lugar?”

às vezes eu acho que você combina com meus personagens, você está pronta pra ir pro papel, pro palco. caras e bocas enquanto eu te como, caras e bocas enquanto durmo. certa vez eu li que a gente pode sentir a presença de alguém mesmo dormindo. e eu sinto a sua, me olhando, pegando no pau, beijando meu peito. fica tudo misturado, a lembrança parece um sonho que parece realidade.
que realidade é essa que você divide comigo?

meu pior defeito faz com que eu ache pouco só essa Cibele.
eu quero todas elas, uma por dia, só pra mim.

(*coincidências acontecem mesmo, guria. Spin spin sugar, lembra?)

tribulations

14 maio, 2010

Lourenço, 02h14, São Paulo

você não atende o telefone. você espera uma visita surpresa, espera que eu te surpreenda. não consigo entender essa sua fantasia, como se o Lourenço que você conheceu antes fizesse isso e o de hoje não. isso é recorrente nas suas queixas. eu quero sentir você deitada no meu peito, cantarolando uma daquelas músicas estranhas que você tanto gosta de ouvir.

você não atendeu o telefone. mas eu espero. e você sabe.

(será que você sabe?)